Crise, devastidão e resistência.

ou

It’s a long way.

É preciso estar o tempo todo (re)criando maneiras de resistir para não sermos devastados.

Não foi fácil chegar até aqui. Com tanta instabilidade política, inversão de valores, num mundo real que mais parece surreal, com tantas conquistas nos sendo retiradas, conceber e fazer existir um festival de dança contemporânea é tarefa árdua. Porque nada contra a maré, é para além e antes da ideia de um evento: é pensado enquanto obra artística e sendo assim vai criando suas próprias lógicas e necessidades.

Realizar um festival é criar contexto para o encontro, para a formação livre do olhar, para fruir e conversar sobre o que nos afeta, para reverberar nos tantos corpos. É lançar sementes na devastidão toda que estamos habitando enquanto país/mundo/comunidade. É o processo de gerar, de ver crescer, de cuidar. É seguir a partir do que foi construído, com o vigor e a vontade da 1ª vez. Ser artista continua sendo inventar contextos com generosidade para poder seguir sendo artista. É acreditar na potência das micropolíticas quando nos depararmos com os olhos brilhando do público, com o feedback dos amigos e desconhecidos, com as pequenas grandes mudanças na cidade.

O JUNTA esse ano se propõe a pensar em crise, devastidão e resistência. Conceitos e direções desta edição, deste momento, de como estamos percebendo o mundo. E como isso nos afeta a vida e nos junta de outras maneiras, nos coloca em ação e movimento, em dança. Este ano trazemos um panorama de artistas e obras que tem seus trabalhos atravessados por estes 3 conceitos. Cada uma sua maneira, com sua natureza ética e estética.

Este ano, o JUNTA está sendo de fato, uma gestação, com todas as surpresas e desconhecidos que fazem parte desse processo. E junto quando ele acontece, uma pessoinha também chegará nesse mundo, para seguir nos inspirando e movimentando mais ainda a vida, em tempos tão espinhosos.

Vamos resistir dançando nossas crises? Dançar para não ser engolido pela devastidão.

Que estes dias sejam intensos e maravilhosos!

Datan Izaká, Jacob Alves e Janaína Lobo